Faz
hoje duas semanas que começamos finalmente o nosso verdadeiro projeto.
Contrariamente ao que esperávamos, não nos foi possível realizar este projeto
no Hospital Pentecost. Em vez disso fomos colocados pela AIESEC numa clínica em
Nima, uma das zonas mais pobres da região. Nima é uma favela em Accra que aloja uma grande comunidade, a maior parte muçulmanos, que se dedica sobretudo ao comércio. Comparado com Madina, onde fica
a nossa casa de voluntários, as ruas são mais sujas e as casas bastante mais degradadas.
Aqui sentimo-nos mais “estranhos”. Não que as pessoas não sejam igualmente
amigáveis e simpáticas, mas as pessoas simplesmente não estão habituadas a
verem pessoas brancas, para não falar que as nossas roupas destoam das túnicas próprias da religião muçulmana.
A
clínica e maternidade Hajj Abdulai Yaro é bastante modesta e tem poucas
condições como mostram as fotos, mas mesmo assim consegue oferecer os cuidados
médicos primários e tratar algumas emergências. Aqui todos os registos médicos são feitos à mão e não há nenhum dispositivo electrónico além do microscópio e de uma centrifugadora no laboratório. Também na clínica o problema da falta de eletricidade e da água corrente se faz sentir, pelo que quase todos os dias as necessidades energéticas são mantidas à custa de um gerador. Contrariamente aos hospitais ou
outras clínicas, destina-se a ajudar as comunidades mais pobres, inclusive alguns refugiados do Médio Oriente, praticando preços bastante acessíveis. A
clínica é pequena tendo apenas 1 consultório, 1 gabinete de
administração, 1 "sala de tratamentos", 1 casa-de-banho, 1 pequena farmácia, 2
pequenas salas de internamento com 3 camas cada uma, um laboratório e uma recepção.
Durante estas 2 semanas,
temos acompanhado o trabalho do único médico e de 1 das 2 enfermeiras da clínica,
ajudando no que podemos e nos é permitido. O
maior problema de saúde que afeta estas comunidades é, sem qualquer dúvida, a
malária. Podemos dizer que 95% dos doentes que vimos tinham malária, mesmo que esse não fosse o motivo que os levou à clinica, desde
infeções severas e possivelmente mortais a infeções ligeiras. Ainda esta semana uma criança de 10 anos veio a uma consulta com o seu pai, os 2 refugiados da Líbia. Como não têm uma habitação estão muito mais sujeitos à picada dos mosquitos, que é muito mais frequente à noite. Esta criança chegou num estado tão severo, que o laboratório, após uma análise sanguínea, classificou este caso de malária como ++++ (a classificação vai desde + a ++++ conforme o grau de severidade), correndo o risco de evoluir para malária cerebral ou até ser letal. Um outro grande
problema é a hipertensão arterial. Frequentemente vimos doentes com menos de 40
anos com tensões de 200/130 mmHg e que não estavam a fazer qualquer tipo de
medicação.
As pessoas não investem na sua saúde ou por não terem meios
económicos para tal ou porque simplesmente definem outras prioridades pelo que
habitualmente não temos muitos doentes. Na primeira quarta-feira, por exemplo,
dia de mercado em Nima, tivemos apenas 1 doente. Não que não houvesse mais
ninguém doente nesse dia mas uma deslocação à clínica significava perder uma manhã
de negócio. Há também alguns casos em que os doentes têm acesso à medicação mas
não a tomam corretamente porque isso não lhes é devidamente explicado nos
hospitais. Em Nima, uma considerável parte da população não sabe falar inglês, apenas Twi, a língua local de Accra.
Independentemente de tudo, tem sido uma grande experiência e uma óptima oportunidade para praticarmos e aprendermos, sobretudo acerca de doenças que não são comuns em Portugal. Mesmo com tão poucas condições de trabalho é possível ser-se profissional, ajudar e cuidar de quem mais precisa. Agora percebemos o quão bom é o nosso sistema de saúde e a importância que este tem para o desenvolvimento de um país.

















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